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Burnout na F1: como pilotos aprendem (alguns do jeito difícil) a desligar

Bottas quase virou um carro com rodas e tudo; Lawson traz violão; e Doohan joga xadrez para não enlouquecer. Entenda a arte de não pensar em corrida.

Por Bruno Bandeira

Foto: Formula1.com / Foto original da matéria-fonte

Ser piloto de F1 é, oficialmente, um trabalho para super-humanos: são apenas 22 vagas no grid e uma dedicação que beira o monástico. Mas até super-heróis têm seu kryptonita, e o nome dela é burnout. A boa notícia é que, aos poucos, os próprios pilotos estão descobrindo que desligar o cérebro é tão importante quanto apertar o acelerador.

Ninguém aprendeu essa lição de forma mais dolorosa do que Valtteri Bottas. O finlandês, hoje na Cadillac, admitiu em uma entrevista honesta que, desde 2014, sua identidade inteira era a corrida — e que ele chegou a se ‘matar de fome’ para perder peso e ganhar décimos. O estalo veio depois do acidente trágico de Jules Bianchi em Suzuka, quando Bottas percebeu que não se importava mais com o que acontecia com ele. Foi ao psicólogo, que apontou o óbvio: ele não tinha interesses fora da pista. ‘Minha identidade inteira era o carro’, escreveu. É ou não é um caso clássico de pessoa que precisa de uma playlist de relaxamento?

Cada um encontra sua válvula de escape. Liam Lawson, da Racing Bulls, leva um violão para todo fim de semana de corrida — porque nada diz ‘desliguei’ como dedilhar um acorde no hotel enquanto os engenheiros ainda discutem ajustes de asa. Jack Doohan, reserva da Haas, prefere o caminho oposto: em vez de se energizar antes da corrida, ele busca a paz. Música calma, partidas de xadrez e conversas sobre qualquer coisa, menos o GP. Afinal, ele já passou as últimas 24 horas pensando naquilo.

Mark Arnall, que passou 20 anos como preparador de Kimi Räikkönen e também trabalhou com Mika Hakkinen e Sebastian Vettel, alerta que o burnout não avisa. ‘Ele pode rastejar até você e a pessoa não percebe até ser diagnosticada’, explica. Além de derrubar o desempenho, mexe com o sono e cria um ciclo de análise excessiva — o famoso ‘por que estou perdendo tempo?’ que só piora tudo. A solução? Reconhecer os sinais e, como diz Bottas, aprender com os próprios erros. ‘A beleza da vida é que você aprende algo novo todo dia’, filosofa o finlandês, que hoje equilibra corridas com natureza, ciclismo, culinária e sauna. Quem diria que o segredo para ser rápido é, às vezes, ir devagar?

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