Aston Martin acha três segundos, mas motor da Honda ainda é loteria
Nova unidade de potência chega, funciona e entrega alguns cavalos, mas pilotos e Adrian Newey apontam o mesmo problema: dirigibilidade virou jogo de azar.

Foto: The Race / Foto original da matéria-fonte
Quem viu o fim de semana de Zandvoort pode ter saído com uma impressão otimista: a Aston Martin encontrou três segundos em duas corridas, Fernando Alonso marcou os primeiros pontos decentes do ano com um nono lugar e a Honda levou para a Holanda uma nova especificação de motor que, segundo seus engenheiros, atingiu a meta interna no dinamômetro e repetiu o desempenho na pista. Parece o começo de uma história bonita. Só que não. Lance Stroll continua descrevendo o carro como uma loteria, e os dois pilotos, além do chefe de equipe Adrian Newey, usaram a mesma palavra após a corrida para apontar o calcanhar de aquiles: a dirigibilidade.
De acordo com o engenheiro-chefe da Honda, Shintaro Orihara, em conversa exclusiva com o The Race, o novo motor não deu nenhum problema de confiabilidade e os sistemas de arrefecimento e lubrificação funcionaram como esperado. O ganho de potência não foi revelado oficialmente, mas estima-se que esteja entre 10 e 30 cavalos. Só que, nas palavras dele, a Honda ainda está ‘muito longe’ dos principais fabricantes da F1. O motivo é exatamente o que os pilotos sentem na pele: a entrega de potência é imprevisível, atrapalha a entrada de curva e transforma cada freiada em uma aposta. Orihara admite que precisa melhorar a combinação entre motor, combustão e o MGU-K.
O problema técnico é fascinante, se você não estiver dentro do carro. Quando o piloto tira o pé do acelerador, o motor vira gerador e o MGU-K começa a colher 350 kW de energia. Isso dobra o ponto de operação, e o sistema precisa calcular tudo para que a força resultante seja exatamente zero em um piscar de olhos. Se o gerenciamento falha, o carro pode ter freio-motor agressivo demais, causar instabilidade, empurrar para o understeer ou até rejeitar uma redução de marcha. E o desafio aumentou com as regras de 2026: a bateria agora responde por quase metade da potência total, e a perda do MGU-H tirou uma ferramenta valiosa que permitia enviar energia elétrica entre os dois motogeradores sem passar pela bateria.
A Honda ainda está se adaptando às novas regras e aos novos parceiros de combustível e lubrificante, Aramco e Valvoline, o que afeta a estabilidade da combustão tanto na aceleração quanto na desaceleração. Orihara diz que esse é um ponto claro de melhoria. Enquanto não resolverem essa equação, ninguém vai saber o verdadeiro potencial do motor — nem a Honda, nem a Aston Martin. O lado bom? A loteria pode até dar prêmio grande, mas, por enquanto, os bilhetes premiados são tão raros quanto um fim de semana tranquilo para Lance Stroll.