A corrida invisível: por que treinar o cérebro é o próximo grande passo da F1 (e quem já está na frente)
Enquanto as equipes gastam fortunas em milésimos de segundo aerodinâmicos, a preparação mental segue sendo o ativo mais subestimado do grid – e alguns pilotos já entenderam isso.

Foto: Credit: The Cahier Archive / Foto original da matéria-fonte
A F1 nunca foi tão obcecada por desempenho. Milhões em peças de fibra de carbono, simuladores que custam o PIB de um pequeno país e pilotos que transformam o corpo em máquinas de precisão. Mas, segundo a coach de performance mental Caroli Remmlinger, tem um componente crucial que continua sendo tratado como prima pobre: o cérebro. ‘Se você treina o físico e o simulador, por que não treina a mente?’, provoca ela, com aquele olhar de quem já viu muito talento ser desperdiçado por falta de preparo psicológico.
Remmlinger, que atende de karts a futuros campeões, faz questão de separar o joio do trigo: não é ‘psicologia esportiva’ básica, é ‘performance mental’ avançada. Enquanto muitos associam psicólogo a ‘tenho um problema’, ela defende que o trabalho deve ser preventivo e contínuo, igual a um programa de academia. E o método dela é quase engenharia reversa das emoções: os pilotos são incentivados a manter um ‘banco de dados’ pessoal – versão chique do diário – para mapear gatilhos e reações. Afinal, se a equipe monitora até a temperatura dos pneus em tempo real, por que o piloto não deveria monitorar a própria paciência quando o rádio range?
Entre os exemplos que ela admira, dois nomes brilham: Mika Häkkinen, um precursor do ‘mindset’ moderno, e Oscar Piastri, que parece ter saído de uma fábrica de pilotos emocionalmente blindados. Remmlinger destaca como Piastri manteve a postura mesmo quando especulações sobre clima de equipe pipocavam ao redor. ‘Esse cara foi tão equilibrado…’, diz ela, quase com inveja profissional. Não à toa: num ambiente onde o rádio explode com ‘estou puto’ a cada ultrapassagem frustrada, manter a calma é quase um superpoder – e, como ela lembra, ‘ficar com raiva não vai te levar ao pódio’.
A boa notícia? O cérebro é treinável. Visualização, respiração, reenquadramento emocional: tudo pode ser ensaiado, como uma curva em Monza. Talvez num futuro próximo veremos engenheiros de rendimento mental ao lado dos engenheiros de pista – e não apenas porque o terapeuta do piloto é mais barato que um novo difusor. Enquanto isso, fica a dica: da próxima vez que ouvir um piloto esbravejar no rádio, lembre-se: aquilo não é fraqueza, é um capítulo do banco de dados que ele ainda não aprendeu a interpretar.